Trump: os EUA contra o neoliberalismo?

A extrema direita consegue captar e transformar em votos os ressentimentos de uma classe operária em descenso social e ressentida com alguns dos efeitos da globalização

Há cerca de vinte anos, muitos pensavam que a reação à globalização neoliberal viria especialmente da esquerda e das forças progressistas. O esforço foi grande nessa direção, em incontáveis mobilizações mundo afora. A emergência dos Fóruns Sociais Mundiais foi expressão forte dessa disputa.

A ideia era a de que a perda do emprego, o vínculo precário, a concentração de renda e a marginalização social fatalmente empurrariam milhões de trabalhadores para a perspectiva da transformação social.

Agora, quando entramos em uma segunda onda neoliberal, a análise tem de ser mais filtrada. Houve uma disputa e a direita extrema também está nela. A vitória de Donald Trump é sua maior concretização.

Quem cresce na crise

A esquerda em geral não cresce nas crises. Nos anos 1930, na esteira da grande depressão, consolidaram-se o fascismo e o nazismo na Europa e regimes autoritários na periferia.

A esquerda só foi avançar de fato no pós-guerra, no período dos “trinta anos gloriosos” no centro. As revoluções e guerras de libertação nacional aconteceram na África, Ásia e América Latina (Cuba). Foi o período em que o leste europeu – com todas as críticas que se possa fazer – pendeu para o socialismo. Foram os anos da afirmação da socialdemocracia e do Estado do bem-estar social, na Europa.

O raciocínio pode continuar com a perda de fôlego até o colapso do socialismo real, no vácuo da contração mundial dos anos 1970 e da crise da dívida, na década seguinte.

A agudização da recessão global, a partir de 2008, não mereceu resposta a altura dos alinhados à democracia e à esquerda.

Foi nesse período que o ciclo reformista latinoamericano entrou em descenso e – mais recentemente – que fenômenos eleitorais do crescimento da ultradireita europeia se tornaram potentes, com destaque para o brexit.

Não conseguimos retomar o debate do papel do Estado, como indutor do desenvolvimento. A direita é quem usou e abusou das engrenagens do poder público para salvar o sistema financeiro e corporações à beira da quebra. Isso se deu na Europa e nos EUA. Tivemos um keynesianismo pelo topo e políticas anticíclicas pela metade, sem distribuição de renda.

A eleição de Donald Trump é a resposta impactante dessa ultradireita de novo figurino. O discurso antiliberal e anti livre-comércio mesclou-se com formulações antioutro.

Quem capitaliza

Se é verdade que a globalização e a exportação de capitais reduz o nível de emprego nos países centrais é também verdade que milhões de trabalhadores ficam sensibilizados com o discurso conservador pró-exclusão. A pregação de que as vagas escasseiam pela crescente presença de imigrantes no mundo rico, por latinos emporcalham suas cidades e por seus valores serem em tese aviltados por gente de pele escura dissemina-se de forma rápida e fácil em sociedades outrora tidas como abastadas.

O discurso antiglobal incorporou o reacionarismo WASP (white, anglo-saxon and protestant).

Ao que parece, os Estados Unidos representam a nova fronteira do discurso antineoliberal.

Pela direita e pelo verbo, bem entendido.

Porque em pouco tempo, Trump se articulará com Wall Street e com o complexo industrial militar, se quiser governar. E a lógica do mundo se reestabelecerá.

Gilberto Maringoni
Professor

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